Artigo
Pasolini: poeta do Erotismo e da Transgressão
João Paulo Félix
No dia 2 de novembro de 1975 Pier Paolo Pasolini foi assassinado nas proximidades de Óstia, na Itália. O mundo perdia um dos mais prolíficos artistas do século XX. Cineasta, poeta, ficcionista e teatrólogo, Pasolini ainda se destacou em outras esferas artísticas com igual genialidade. Toda a sua obra pode ser considerada como verdadeiras elegias poéticas do erotismo e da libertação dos instintos.
Pasolini nasceu em Bologna, no dia 5 de março de 1922. Quando criança, acompanhou o pai, que era militar de carreira, a muitas viagens. Estudou na Universidade de Bologna, onde travou contato com renomados professores, além de se tornar amigo de intelectuais conhecidos, como Roberto Roversi. Graduou-se em letras com uma tese sobre o estilo do poeta Giovanni Pascoli, em 1945. Costumava passar os verões em Casarsa dela Delizia, ao norte da Itália. Lá ele se refugiou no final de 1943, para não ter que cumprir a ordem de recrutamento. Em Friulano, o dialeto local, Pasolini compôs seus primeiros versos, ‘Poesie a Casarsa’. Em 1945, ele recebe uma trágica notícia: seu irmão Guido fora assassinado devido a um conflito armado entre dois grupos políticos rivais. Isso foi um choque para ele. Em 1947, inscreve-se no Partido Comunista Italiano (PCI). E no mesmo ano, ocorre um escândalo: devido a um episódio confuso de homossexualismo, Pasolini foi expulso do PCI e sofreu um processo acusado de corrupção de menores. Com isso teve de deixar Casarsa e acabou perdendo a chance de dar continuidade a uma promissora carreira de magistério. Logo após esse episódio, Pasolini deixou Casarsa junto com a mãe e transferiu-se para Roma, estabelecendo-se em um bairro popular. O contato com a realidade do subproletariado romano inspirou-lhe alguns versos e principalmente as narrativas ‘Ragazzi di Vita’ e ‘Uma Vita Violenta’, em 1959, as quais causaram polêmica, mas lhe propiciou um enorme sucesso literário.
Quanto a originalidade de Pasolini?
No século XIX, na Itália, existia um gênero litarário conhecido como’Poesia Cívica’, que abordava temas como política, cultura e humanismo. Ela esteve sempre no lado direito, conservador e nacionalista. “A originalidade de Pasolini foi fazer essa poesia tender para a esquerda”, explica o escritor Alberto Moravia. Seus romances tem o mérito de revelar o favelado, o excluído. Nessa época, Pasolini já tinha iniciado sua atividade no âmbito cinematográfico, colaborando com alguns roteiros ( como em ‘As Noites de Cabíria’, 1957, de Federico Fellini).
Sua estréia como diretor foi em ‘Accatone’ (1961), filme indisciplinado, brilhante e autoral em que narra os problemas vividos pela juventude dos bairros pobres de Roma. No ano seguinte, abordando uma temática semelhante, dirigiu ‘Mamma Roma’, feito em função da protagonista, a atriz Anna Magnani. ‘Comício de Amor’ (1963), seu filme seguinte, é uma indagação sobre o comportamento dos italianos em relação ao sexo, passando do otimismo ao desespero ao descobrir os tabus, a imaturidade, a hipocrisia e o cinismo que governam a sociedade e o indivíduo (problema que se evidencia em todas as sociedades atuais). O reconhecimento da crítica mundial veio com ‘O Evangelho Segundo São Mateus’ (1964), filme vencedor de onze prêmios internacionais, cinco deles no Festival de Veneza. Ateu declarado, Pasolini conseguiu realizar a obra sob a ótica de um cristão. Ao contrário de seus filmes anteriores, este é narrado em terceira pessoa. Depois da alegoria cômica ‘Gaviões e Passarinhos (1966), Pasolini, decepcionado com o marxismo em crise e com o neocapitalismo dominante, resolve voltar seu olhar para o passado mítico, adaptando duas seminais tragédias gregas: ‘Édipo Rei’ e ‘Medéia’. A adaptação da peça de Sófocles chegou a causar polêmica na Itália. Para os italianos, Édipo sempre foi um intelectual. Pasolini pensava diferente. Para ele, o intelectual procura o indulto e Édipo, ao contrário, é transpira inocência. Se não fosse, poderia ter descoberto a verdade. É a contraposição da inocência com a razão. Para o diretor, a única esperança é cultural, ser um intelectual.
No início dos anos 1970, Pasolini expôs sua visão do erotismo medieval, adaptando três grandes obras da literatura universal: ‘Decamerão’(1971), de Giovanni Bocaccio (que será exibido no dia 13 de março no cineclube Machado Bitencourt); ‘Os Contos de Canterbury’(1972), de Geoffrey Chaucer e ‘As Mil e Uma Noites’ (1974) de autoria anônima. Essa série foi batizada pelo diretor de “A Trilogia da Vida’ e são genuínas representações de um Eros primitivo em contraposição às convenções e regras morais do capitalismo tardio. O diretor foi acusado de pornógrafo por retratar corpos nus, especiamente masculinos, sem pudores.
Homossexual declarado, Pasolini nunca escondeu sua admiração pela figura do jovem e belo adolescente, uma tradição que remonta aos poetas greco-romanos da Antigüidade.
Seu último suspiro cinematográfico se deu em 1975, com a adaptação de ‘Saló ou Os 120 Dias de Sodoma’. Baseado na obra do Marquês de Sade, Pasolini retratou os excessos de poder e o sadismo de um grupo de fascistas da pequena República de Saló (último reduto de Mussolini) contra um grupo de jovens inocentes. Apesar de ser desagradável em alguns momentos, o filme mostra as faquezas sexuais do ser humano e a perversidade das autoridades. As dúvidas sobre sua morte ainda permanecem. A versão oficial nos diz que Pasolini foi assassinado por um garoto de programa chamado Giuseppe Pelosi. Pedaços de madeira com sangue encontrados no local e a contradição no discurso do acusado dão margens a muitas interpretações. Porquê Pelossi assumiu a inteira responsabilidade pela morte do cineasta quando havia evidências claras da participação de terceiros? Porque as autoridades italianas se contetaram com a versão do michê e não avançou nas investigações? Suspeitas políticas foram levantadas devido ao constante conflito do cineasta com a direira e a esquerda. O caso permanece sem solução até o momento e acabou gerando um filme interessante sobre o assunto, ‘Pasolini: um Delito Italiano’, de Marco Tullio Giordana. Para esse diretor, a morte de Pasolini foi um crime político. Contraditório, místico, ateu e católico, Pasolini foi, sem dúvida, o maior poeta italiano do pós-guerra e um dos artistas mais inquietos do cinema moderno.
Ficou muito bom, João. Ficarei feliz se for publicado!!!
Por: Ivan Riacrte em maio 24, 2009
às 7:50 pm